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Sombreamento e produção de embriões in vitro

 

O estresse térmico afeta o desenvolvimento folicular, a qualidade de oócitos e embriões e consequentemente a taxa de prenhez de fêmeas bovinas. O efeito do estresse térmico de doadoras da raça Nelore é pouco discutido, mas sabe-se que o sombreamento pode beneficiar seu conforto e consequentemente sua produtividade.

O desempenho satisfatório de um animal é dependente de uma faixa de temperatura denominada Zona de Conforto Térmico (ZTC), que corresponde a limites de temperatura nos quais o animal encontra-se em homeostase, sem a necessidade de uso de artifícios termorreguladores (Pereira, 2005). Quando a temperatura ambiente alcança temperaturas críticas superiores a ZTC, a eficiência dos processos de perda de calor é reduzida e o animal entra em estresse pelo calor (EC) (Silanikove, 2000), o que leva a um consequente acionamento de mecanismos de termorregulação (Rodrigues et al., 2010). Como respostas observam-se alterações no comportamento animal, na temperatura corporal, frequência respiratória, batimentos cardíacos e taxa de sudorese (Paranhos da Costa, 2004), além de alterações na atividade adrenal e resposta imunológica (Glaser, 2008; Macedo et al., 2012). Redução do ganho de peso (Navarini et al., 2009), do consumo de alimentos (Glaser, 2008), e consequentemente do desempenho reprodutivo (Lima et al., 2013) também já foram relatados.

Na reprodução, o EC afeta o desenvolvimento folicular (Wolfenson et al., 1997) e a qualidade do oócito, interferindo desde os estágios iniciais até o final da maturação (Paula-Lopes et al., 2012), bem como o número e a qualidade dos embriões produzidos in vitro (Torres-Júnior et al., 2008). Em consequência aos transtornos citados, a taxa de prenhez também é negativamente afetada.

O sombreamento diminui a incidência de radiação sobre o animal, beneficia o conforto térmico e favorece a homeotermia (GLASER, 2003). De acordo com Silanikove (2000) o sombreamento bem projetado reduz a carga de calor total em 30% a 50%.

Os benefícios da sombra são mais evidentes em Bos taurus. No entanto, já foram observados efeitos positivos do sombreamento em Bos indicus (Navarini et al., 2009). Contudo, pouco se sabe sobre o quanto o estresse térmico interfere na reprodução de bovinos adaptados aos trópicos.

Pesquisa de mestrado de Willian Leite, desenvolvida em parceria entre o curso de pós graduação em Zootecnica da UEMS, em pós graduação em Ciências Veterinárias da UFMS e a Embrapa Gado de Corte, buscou evidenciar de maneira metodológica o impacto do aumento da oferta de sombra em sistema integrado lavoura-pecuária floresta à doadoras da raça Nelore, sobre o desenvolvimento embrionário in vitro e parâmetros fisiológicos relacionados a resposta ao estresse. Para isso, selecionou-se duas áreas distintas, uma contendo 227 árvores por ha em sistema de integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF), enquanto a outra continha 5 árvores por ha. Ambas localizadas na Embrapa Gado de Corte. Foram selecionadas 16 vacas nelores, em idade média de 23 meses e escore corporal entre 2.5-3.5, colocando oito delas em cada um dos ambientes.

Todas as doadoras foram submetidas a três sessões de aspiração folicular guiada por ultrassonografia (OPU) para coleta dos Complexos-Cumulus-Oócitos (COCs), uma vez por mês, para produção de embriões in vitro, no período de dezembro de 2015 a fevereiro de 2016.  Em cada sessão de OPU eram avaliados os parâmetros fisiológicos e eram feitas coletas de sangue para análise dos hormônios T3, T4, cortisol, estrógeno e progesterona. O microclima das duas áreas foi controlado por equipamentos específicos e através destes era feito o cálculo do índice de temperatura e umidade do globo de negro (ITGU), através do qual é possível se fazer uma estimativa do conforto térmico do animal.

Nenhum dos parâmetros fisiológicos aferidos foi superior aos padrões fisiológicos da espécie, bem como não houve diferença entre os sistemas de sombreamento. Da mesma forma não houve alteração dos níveis dos hormônios estudados nas doadoras entre as áreas.

Não foi observada diferença da viabilidade oocitária e taxa de clivagem, porém a produção de blastocistos da doadoras manejadas em ILPF foi mais de 50% superior. 

Os resultados demonstraram que novilhas Nelore são capazes de manter a homeotermia em condições de ITGU de até 92, confirmando a termotolerância da raça. Porém, o aumento da disponibilidade de sombra melhorou significativamente a produção de embriões in vitro. Acredita-se que os mecanismos de resposta ao estresse de raças adaptadas são menos eficientes em proteger fenômenos biológicos de longa duração como a foliculogênese.

Por: Fabiana de Andrade Melo Sterza - UEMS, Eliane Vianna Costa e Silva - UFMS, Fabiana Villa Alves - Embrapa Gado de Corte

Agradecimentos: Fundect e CAPES

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Pereira JCC. Fundamentos de bioclimatologia aplicados à produção animal: FEPMVZ; 2005.

Silanikove N. Effects of heat stress on the welfare of extensively managed domestic ruminants. Livestock production science. 2000;67:1-18. 33

Rodrigues AL, Souza Bd, Pereira Filho JM. Influência do sombreamento e dos sistemas de resfriamento no conforto térmico de vacas leiteiras. Agropecuária Científica no Semiárido. 2010;6:14-22.

Paranhos da Costa MP. Comportamento e bem-estar de bovinos e suas relações com a produção de qualidade. Anais dos Simpósios da 41a Reunião da Sociedade Brasileira de Zootecnia Campo Grande, Brasil2004. p. 260-8.

Glaser FD. Behavioral aspects of cattle of Angus, Caracu and Nelore breeds grazing on the availability of shade and water resources for immersion. Pirassununga.: Universidade de São Paulo; 2008.

Macedo GG, Zúccari CE. Temperature and humidity in the brazilian center-east affecting the in vivo embryo production of nelore cows. Archives of Veterinary Science. 2012;17.

Navarini FC, Klosowski ES, Campos AT, Teixeira RdA, Almeida CP. Thermal comfort of nelore bovine in pasture under several lighting conditions. Engenharia Agrícola. 2009;29:508-17.

Lima RS, Assumpção MEODA, Visitin JA, de Paula Lopes FF. Heat-induced cell changes in bovine embryos. Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science. 2013;50:257-64.

Roth Z, Arav A, Bor A, Zeron Y, Braw-Tal R, Wolfenson D. Improvement of quality of oocytes collected in the autumn by enhanced removal of impaired follicles from previously heat-stressed cows. Reproduction (Cambridge, England). 2001;122:737-44.

Paula- Lopes FF, Lima R, Risolia PHB, Ispada J, Assumpção MEO, Visintin JA. Heat stress induced alteration in bovine oocytes: functional and cellular aspects. Animal Reproduction. 2012:395-403.

Torres-Junior JRS, de FAPM, de Sa WF, de MFA, Viana JH, Camargo LS, et al. Effect of maternal heat-stress on follicular growth and oocyte competence in Bos indicus cattle. Theriogenology. 2008;69:155-66. 22



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